sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Blog'n'Roll: Brasil, país da música ruim - parte 1


O ano de 2012 começa sem que as pessoas realmente mudem por dentro. Uma das bandeiras desde blog tem sido, desde os primeiros posts, a liberdade musical, o acesso livre à música e à arte e a legalização do download (para fins não comerciais). O objetivo disso é levar a um número cada vez maior de pessoas, música de qualidade, seja ela nacional ou estrangeira.

Não cabe neste texto limitar a discussão ao rock clássico, alvo desde blog, mas à Música, assim com letra maiúscula, como ciência e arte. O assunto vai muito além dos rótulos.

Voltando ao acesso livre à música, era de se esperar que, em pleno alvorecer do tão aguardado século XXI, as pessoas buscassem algo mais. Ao menos para mim, é como se todos nós tivéssemos acesso a tudo que um dia já foi criado, numa imensa biblioteca de sons que nunca irá se esgotar. As pessoas finalmente podem expandir seus horizontes em direções nunca antes imaginadas, e o melhor, gastando nada ou quase nada com isso. A relação custo x benefício nunca foi tão desequilibrada ao nosso favor.

Sou de uma geração que muitas vezes precisou comprar um vinil por causa de uma única música, ou então descobrir um conhecido que tinha o tal disco e pedir para gravar num cassete. Virava noites fazendo compilações em fita (tenho algumas até hoje), a partir de vinis emprestados ou testando minha velocidade no gatilho, gravando direto do rádio. Nos anos 90 o CD deixou o vinil de lado, com mais qualidade e trazendo os gravadores. Já no final da década, veio o Napster com a mudança que persiste até hoje.

Confesso que há mais de 10 anos consegui todas as músicas com as quais sonhava quando era um adolescente. Depois disso, insaciável, comecei a explorar novas bandas, novos sons e tendências. Indispensável dizer que sempre com o sinal de alerta ligado para as porcarias que giram por aí. Sim porque, afinal de contas, música ruim sempre existiu, mesmo nos idolatrados sixties. Acontece que o filtro do tempo é implacável e o lixo é varrido para baixo do tapete da memória.

Minha preocupação (e indignação) hoje é outra: acho que vai faltar tapete...

Porque se a World Wide Web ajudou a impulsionar muitos artistas de qualidade, nos facilitou o acesso a eles e promoveu este encontro, também é verdade que abriu os portões do inferno musical, libertando de lá uma série de demônios que eu, na minha inocência, ignorava a existência. Simplesmente não consigo compreender como um sujeito que, depois de passar fome, tem uma imensa geladeira cheia de pratos deliciosos à disposição e ainda assim prefere comer merda no café, no almoço e no jantar. O quadro é esse.

Por outro lado, é importante lembrar que vivemos um país ufanista, onde tudo é o melhor, o maior ou o mais bonito. Quando hoje alguém fala da música brasileira, respeitada em todo o mundo, invariavelmente está falando de uma geração que está aí há pelo menos 30 ou 40 anos. Estamos falando de Gil, Milton Nascimento, Chico Buarque e outros desta turma. Ok, um ou outro podem ter feito sucesso lá fora com qualidade, mas nunca no mesmo patamar. O fato é que o rótulo continuou, mas o conteúdo do frasco...

Nos últimos 20 anos, com a derrocada das gravadoras, o que vemos no Brasil é uma invasão de modinhas, regionalizadas, que levam absolutamente nada a quem ouve. Se em outros tempos o povo vivia de pão e circo, hoje basta o segundo. Há mais de 50 anos, Nelson Rodrigues dizia que chegaria a era da idiotia absoluta: ela chegou. A explicação para o povo não conseguir gostar de uma letra como as de Chico Buarque nos anos 60 ou 70 é simples: ele não entende.

E não entende porque nosso sistema educacional vem caindo ano após ano, porque o estímulo familiar é pífio, porque a programação oferecida pela mídia é simplesmente ridícula e porque, infelizmente, o acesso à informação restringe-se às redes sociais e páginas de fofoca.

O quadro, portanto é este, infelizmente não apenas no Brasil. Mas limitar-me-ei a falar do nosso país, realidade que conhecemos de perto e que nos influencia diretamente. Aqui essa terra árida de idéias nos brindou com aberrações como o axé, o funk, o sertanejo e o pagode, tanto no campo sonoro (som não é necessariamente música) como no visual, com modas bizarras, que felizmente só duram um verão, mas infelizmente são substituídas por outras ainda piores.

Durante muito tempo, preferi ficar na minha, deixando minha caravana passar enquanto os burros berravam. Mas indignação tem limite e por isso nas próximas sextas-feiras passarei a limpo essa era de imbecilidade de vem destruindo o que sobrou de racionalidade na cabeça do brasileiro.

5 comentários:

Ricardo Mann e Michele Michel disse...

Caio, excelente artigo! Está na hora mesmo de falar! Não devemos egoísticamente guardar o ouro que garimpamos e deixar que os outros se ferrem no mundo limitado das mídias convencionais. Temos que divulgar o que é bom e os blogs estão aí para isso!

Vanessa Tyler disse...

Mesmo sendo uma bebê de 24 anos, vivi o tempo em que o acesso à música era limitado. Também gravei fitas k7 da rádio, e dava um valor imenso ao material que eu tinha. Cada canção era vista como uma preciosidade. Ouvir a mesma faixa várias vezes era algo comum. Confesso que hoje, a internet me deixa perdida e muitas vezes, com tantas opções, me sinto perdida.
Cheguei a conclusão que algumas pessoas não são seletivas, escolhem o que ouvem pelo barulho, pelo som. Música é um conjunto de melodia, harmonia, ritmo, poesia, significado, sensação inconsciente. É algo semãntico.

Danilo. disse...

Legal, Caio. Gostei do texto.

Zanna disse...

Só eu sei o que você quer dizer com tudo isso.
Hoje me deparo na profissão que estou que é com produção musical,o quanto é fácil vender merda.Infelizmente esse é o nosso mercado sonográfico brasileiro.
Mas eu também acho que o gosto musical em si, vem muito da educação dos pais. Agradeço meu pai por isso!!
E agora mais que nunca a você.

Ansiosa para segunda parte!

Anônimo disse...

Ah! finalmente eu encontrei o que eu estava procurando. Às vezes é preciso muito esforço para encontrar ainda pequena peça de informação útil.